quarta-feira, 22 de julho de 2009

Conferências Municipais de Cultura


Bastante tempo sem escrever gera um acúmulo de assuntos. E, como dizem os jornalistas e comunicólogos (os da televisão), assunto atrasado vira “paisagem”.

Contudo, na condição de uma das atividades mais importantes do calendário artístico-cultural acreano, não poderia deixar de mencionar a realização do XI Arraial Cultural, que aconteceu entre os dias 29 de junho e 05 de julho, tendo como tema “Tradição, Cultura Popular e Acreanidade.” As atividades contemplaram o também tradicional Concurso Estadual de Quadrilhas Juninas, além da farta gastronomia típica da região (e das celebrações juninas), apresentações dos grupos de pastorinhas e marujada (folguedos tradicionais do norte e do nordeste do Brasil), repentistas, cordelistas, bandas de forró e tudo o mais que se relaciona com esse importante traço cultural do norte-nordeste brasileiro, com direito a show de encerramento com o “Novo Baiano” Moraes Moreira. Atividade que marca o encerramento do período de festas juninas (os arraiais) no nosso Estado, é um grande mosaico das culturas populares acreanas. Veja as imagens aqui, na Agência de Notícias do Governo do Acre.

Mas escrevi esse texto no domingo (20jul2009), no município de Cruzeiro do Sul, onde acabava de completar a minha 36ª viagem nesse ano de 2009, desta feira para a realização das Conferências Municipais de Cultura de Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul. As Conferências Municipais são etapas da 2ª Conferência Estadual e 2ª Conferência Nacional de Cultura e, no Acre, têm como foco prioritário a discussão acerca da implantação das estruturas que constituem os Sistemas Municipais de Cultura (órgãos gestores, conselhos, conferências, planos, fundos e leis de incentivo à cultura, dentre outras). A de CZS foi a 5ª dentre as 22 que ainda realizaremos até o final de agosto, sempre em parceria com as Prefeituras Municipais e o Conselho Estadual de Cultura. A 2ª Conferência Estadual deverá acontecer na primeira semana de outubro.

Aqui vale abrir aspas:

O interessante é ver o quanto a temática cultural tem mobilizado as pessoas, novamente, nesses últimos tempos. Conversando com amigos e companheiros de trabalho por esses dias, sem pretensões de grandes arroubos teóricos e intelectuais, víamos que, após a passagem do período da ditadura militar no Brasil (que também coincidiu, em partes, com os efeitos das duas crises mundiais do petróleo), e na medida em que as “bandeiras de luta” dos chamados Novos Movimentos Sociais - NMSs (feminista, negro, ambientalista, GLBT etc) se consagravam como direitos objetivos e positivados em normas jurídicas internacionais e nacionais, e também a medida que tais direitos passaram a ganhar, progressivamente, eficácia e efetividade através de sua incorporação enquanto metas a se atingir através da implantação de determinadas políticas públicas pelos diferentes governos nacionais e sub-nacionais (ora com maior, ora com menor intensidade, a depender dos programas de governo de diferentes matrizes ideológicas), as mobilizações sociais passaram a ficar, aparentemente, sem norte, sem “bandeiras” as quais defraudar.

Some-se a isso o fato de que, no Brasil, com a progressiva assunção dos diferentes grupos de esquerda ao poder, houve a concretização de uma forte tendência: a de que as lideranças sociais (sindicais, comunitárias etc) passassem a incorporar os quadros do poder público. Tais fatores, em conjunto e sem prejuízo de outros, levam a um natural arrefecimento do movimento social em suas diferentes matrizes.
No mesmo compasso, ainda que se diga que as políticas de distribuição de renda, como o Bolsa Família, tem caráter eminentemente assistencialista e não-emancipatório, e que tendem a nivelar o poder aquisitivo “por baixo”, achatando a classe média, escorçada com a política macroeconômica de controle inflacionário através da alta taxa de juros, combinada com a baixa taxa de câmbio, é fato que uma grande parcela da população emergiu de uma condição de “abaixo da linha de pobreza” para uma condição de, vamos dizer, “menos pobres”. Isso faz com que tais pessoas não se encontrem mais no nível “emergencial” e sim bem mais próximas do nível “intermediário” de atenção por parte do poder público.

E, para quem não mais se encontra no nível emergencial de atenção básica, passa a vigorar a “Lei de Antunes, Fromer e Brito”, segundo a qual “a(s) gente(s) não quer(em) só comida, a(s) gente(s) quer(em) bebida, diversão e arte.”
Sendo assim, se já não há mais bandeiras de luta comuns nem fatos políticos capazes de mobilizar a massa em uníssono (o último foi a dos caras-pintada), o que move as pessoas para se reunir e deliberar em fóruns democráticos e participativos que têm como pauta a discussão para elaboração de políticas públicas nas diferentes áreas de atuação governamental?

Essa é uma pergunta que me faço todos os dias. E não encontro uma resposta muito convincente, embora veja, com os meus próprios olhos, que é cada vez maior o número de pessoas interessadas em participar de conselhos, câmaras, fóruns, colegiados, conferências, colóquios, seminários... Ao menos aqui no Acre (e na área da cultura) tem sido assim.

Será que estamos avançando no sentido da efetivação da democracia participativa, em complemento a nossa ainda não consolidada mas, ao mesmo tempo, já combalida, democracia representativa?

Fecho as aspas.

Além da discussão dos eixos e sub-eixos que constituem o temário das conferências, também são eleitos os delegados que participarão das etapas estadual e nacional. Tem-se deliberado também, por ocasião da plenária final, pelo encaminhamento, às respectivas Prefeituras Municipais, de minutas de projetos de lei que dispõem sobre a criação dos Conselhos Municipais de Cultura, importante passo para a construção e\ou consolidação dos sistemas municipais de cultura.

Vale reforçar: pela primeira vez os municípios acreanos realizam conferências de cultural. As conferências não são a panacéia da cultura local, mas tem sido emocionante ver o depoimento de pessoas dizendo que esperaram por esse momento por dez anos. Leia mais aqui.

3 comentários:

  1. Oi, moço Zen
    Li e gostei. beijocas
    Olivia Maia

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  2. Olá Zen,
    sou do Casarão Cultural Floresta Sonora, Belém-Pa.
    temos umas histórias aqui em Bel comprometidos em somar bons valores a Cultura, principalmente em nossa região.
    cara, estou numa cruzada pelos estados do Norte, ainda no início, mas ja apeertei o botão, p/ criar uma rede de contato e circulação de obras,artistas, produtores, demais profissionais do ciclo produtivo da cultura, e isso se chama MOVIMENTO CURUPIRA, para quebrar as barreiras entre nós amazonidas e fortalecer nossa regiao!
    Tenho certeza q precisamos bater esse papo, tb tem os materiais aqui do Floresta Sonora q desejo lhe entregar.
    um grande abrço e fica com Deus!

    Manuel Cardoso (mcardoso1979@hotmail.com)

    Meu blog q vai postado ai esta muito desatualizado, mas irei retomá-lo

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  3. Acho sim que estamos caminhando para a dem. participativa. Importante visualizar isso em algum âmbito pois vejo muitos com opiniões pessimistas sobre a evolução política nacional e global.
    boas aspas

    Eu tenho uma visão otimista sobre a humanidade em geral...

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