domingo, 2 de janeiro de 2011

O Discurso da Presidente Dilma e as Variáveis Inflacionárias





á faz parte, aliás, da nossa cultura recente a convicção de que a inflação desorganiza a economia e degrada a renda do trabalhador. Não permitiremos, sob nenhuma hipótese, que essa praga volte a corroer nosso tecido econômico e a castigar as famílias mais pobres.”
Trecho do discurso de posse da Presidente da República, Dilma Roussef, proferido durante Compromisso Constitucional firmado perante o Congresso Nacional.

O estudo do controle da inflação é um verdadeiro anagrama. São tantas as variáveis que podem resultar em inflação ou deflação que suas variações se assemelham a montagem de um cubo mágico: enquanto se encontram determinadas cores no sólido, se desencontram outras, o que não quer dizer que a simetria perfeita das cores não seja possível, simultaneamente, nas 6 faces do cubo.

Vejamos: havia escrito no texto anterior, aqui mesmo nesse blog, que “as altas taxas de juros, que seguram a pressão inflacionária, contudo, tem o lado ruim de pressionar o real para uma supervalorização em relação ao dólar, o que também tem efeitos duplos: de um lado, estimula importações de bens de capital para modernização da indústria (máquinas e equipamentos); e, por outro lado, torna nossos produtos pouco competitivos para exportação, desequilibrando a balança comercial que, mesmo superavitária, assim segue somente as custas de commodities (grãos, principalmente). Além disso, a dobradinha [juros altos + câmbio flutuante] estimula o mercado de capitais em detrimento da produção em si. Ou seja, mesmo com a inflação sob controle, ainda compensa mais investir na bolsa de valores do que em atividades produtivas, da indústria, comércio e serviços.”

Só do parágrafo acima conseguimos extrair uma série de variáveis, dentre as quais destaco duas:

Taxa de Juros
Câmbio Flutuante

Ambas as variáveis terão impacto direto na balança comercial (importações vs. exportações), dívida interna, dívida externa, poupança interna e tantas outras capazes de influenciar não só o equilíbrio inflacionário, mas toda a conjuntura econômica da nação.

Vejamos algumas situações hipotéticas:

1 - Juros muito baixos ocasionam facilidade de crédito que significa aumento de capital circulante (dinheiro girando na praça), o que pode resultar em aumento da produção, mas também do consumo interno; aumento do consumo interno gera aumento de preços dos bens de consumo e conseqüente desvalorização da moeda, o que gera inflação

1.1 – Se temos a moeda desvalorizada, temos redução de importações e aumento das exportações, o que é bom para a balança comercial; mas a elevação das exportações também gera pressão pelo aumento dos preços dos bens de consumo, em virtude da escassez de tais produtos no mercado interno, o que gera inflação

2 – Juros muito altos ocasionam uma valorização natural da moeda nacional em relação ao Dólar, no sistema de câmbio flutuante, em virtude de tornar o país mais atraente para o capital especulativo em detrimento das atividades produtivas.

2.1 – Se temos a moeda supervalorizada, temos aumento das importações e redução das exportações, pois ao passo em que se aumenta o poder aquisitivo de produtos estrangeiros em moeda nacional, os produtos nacionais se tornam menos competitivos, em preços, no mercado internacional; isso gera estímulo ao consumo de importados, o que tende a resultar em déficit na balança comercial e pode levar a desindustrizalização; em contrapartida, segura o consumo interno, os preços de mercado e a inflação. Moeda supervalorizada também gera déficit nas contas externas.

Ou seja:

Se reduzo juros, estimulo o crédito e a produção, mas desvalorizo a moeda; se desvalorizo a moeda, causo inflação. Assim, pode haver crescimento, distribuição de renda, mas há corrosão no poder aquisitivo dessa renda.

Se aumento juros, valorizo a moeda, mas desestimulo atividades produtivas e exportações e estimulo a especulação. Assim, controlo a inflação, mantenho o poder aquisitivo da moeda, mas estanco o crescimento. Sem crescimento, não há sequer renda a ser distribuída.

Sendo assim:

É necessário reduzir juros, de forma a estimular o crédito e, consequentemente, a produção. Mas essa redução não pode ser tamanha que desvalorize em demasia a moeda, causando inflação.

É necessário segurar a valorização do real, de forma que a sua supervalorização não desestimule as exportações e nem aumente o déficit das contas externas. Mas esse controle da valorização não pode levar a desvalorização excessiva.

É necessário reduzir a carga tributária, também como forma de estimular as atividades produtivas. Mas não se pode reduzir os tributos de forma a causar déficit nas contas públicas.

Sendo assim, para reduzir os juros de forma a segurar a valorização do real em níveis aceitáveis, conseguindo diminuir o peso dos impostos e, ainda assim, manter a inflação em baixa, só há duas saídas: controlar as contas públicas e ampliar a poupança interna.

O controle das contas públicas passa pela necessidade de equilibrar a matriz da despesa pública, disposta na equação “Custeio VS. Investimento VS. Dívida.”, que também impactará, diretamente, na questão da arrecadação (tributos). Quando falamos em controlar as contas públicas, falamos, basicamente, em reduzir os gastos de custeio. Aí também há um outro anagrama que assola a contabilidade pública: geralmente se consideram despesas correntes como custeio e despesas de capital como investimento. Ocorre que nem toda despesa corrente deve ser considerada como gasto de custeio. Há despesas correntes que podem ser consideradas investimento. Já as despesas de capital podem ser consideradas sempre como investimento.

Transportar estas premissas em equações econométricas, com suporte matemático de cálculo avançado, é algo que transborda a minha capacidade de formulação. E sem essa capacidade, não há como prosseguir nessa análise.

Como consolo pessoal, sigo analisando os demais trechos do discurso de nossa Presidente, bastante coerente e inspirador.

Foto: Agência Reuters

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