domingo, 24 de abril de 2011

Tristão de Athayde

Neste Domingo de Páscoa de 2011, trago trecho de lição do mestre católico Alceu Amoroso Lima, codinome Tristão de Athayde. Advogado, diplomata, escritor, crítico literário, membro do Conselho Nacional de Educação, tornou-se um dos maiores expoentes do pensamento cristão brasileiro. Crítico veemente do autoritarismo, seu pensamento político moderado passeia, com a mesma desenvolturada, da crítica ao liberalismo econômico reacionário, ao socialismo marxista revolucionário. Discípulo intelectual de Jacques Maritain, foi o responsável pela tradução, para o português, das Encíclicas do Papa João XXIII, Mater et Magistra e na Pacem in Terris, de forte cunho social e inspiradoras da Teologia da Libertação. Autor de mais de 80 obras sobre educação, filosofia, literatura, religião, cultura e sociologia, figura, com destaque, no rol dos grandes educadores brasileiros.

"[...]

Numa concepção sadia do homem, como fusão de corpo e espírito, conhecimento e amor se interpenetram a mutuamente se fecundam. Assim como amor se corrompe pelo egoísmo, quando artificialmente se volta sobre si mesmo, também o conhecimento se corrompe pelo narcisismo, quando se dobra em iguais circunstâncias. O conhecimento é uma fusão do espírito com o ser, como o amor físico é uma fusão com o corpo amado. E tanto o espírito se eleva sobre a natureza quanto o conhecimento intelectual se eleva sobre o amor físico, elevando-o à categoria de espiritual. O amor é, pois, necessário, ao conhecimento, como este é necessário àquele.

O mito da cultura é, realmente, uma penetração do conhecimento pela passionalidade e nisso nada tem de censurável. O movimento, que modernamente à exaltação dos bens culturais está na linha da própria elevação do ser humano. O que não está é a desligação entre o conhecimento e seu objeto, cuja união é exatamente o domínio da verdade.

Não basta amar a cultura em si. A consequência desse amor é o diletantismo. E o diletantismo é a irresponsabilidade no exercício da inteligência. É a dissociação entre esse exercício e suas consequências. O oposto do diletantismo, tão censurável quanto ele, é o profissionalismo, isto é, a reeducação da cultura suas tarefas exclusivamente práticas e utilitárias, sua mutilação por uma exagerada limitação especializada.

Ligar o ideal da verdade ao exercício de uma sadia formação cultural é, simultaneamente, impedir os dois males – do diletantismo e do profissionalismo. Do diletantismo por si orienta ao enriquecimento do espírito, por uma constante adequação à realidade. Do profissionalismo por impedir o confinamento do espírito apenas num recanto da realidade. Dá-se, em parte, com a inteligência o que se dá nos domínios dos bens materiais. Assim como a lei fundamental da economia não é a acumulação e sim a utilização dos valores materiais em benefício das exigências do homem e da civilização, também a lei fundamental da cultura não é a acumulação do saber e sim sua adaptação ao homem na realização completa do seu destino. O saber é como a riqueza. Fecundo, quando a serviço do homem; perigoso, quando a serviço de si mesmo. O saber pelo saber é como a riqueza pela riqueza. Aquele gera o orgulho, essa gera a avareza.

[...]"

LIMA, Alceu Amoroso. Existencialismo e outros mitos dos nossos tempos. In.: CURY, Carlos Roberto Jamil. Alceu Amoroso Lima. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Editora Massangana, 2010. (Coleção Educadores). p. 166.

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