sábado, 7 de maio de 2011

Pedro, o atleticano



Reparem bem na foto ao lado. Esse é o meu filho Pedro, de 7 meses de idade. De mãe, avós e tio mineiros e atleticanos, sou minoria acreana e flamenguista a influenciar nas escolhas futuras pelas preferências futebolísticas do menino. Como todo acreano que se preze, torço para um dos 4 grandes do Rio. Acreano torcendo para time de São Paulo ou de outros Estados só se viu depois da chegada dos “paulistas”, oriundos da migração decorrente da expansão da fronteira agropecuária, com o declínio do segundo ciclo da borracha.

Mas antes de comentar sobre a foto e as vestimentas nada adequadas do bruguelo, tenho de fazer alguma digressão pela minha infância.

Para além de perder sucessivos títulos para o Flamengo, castigo de vascaíno é ter filho flamenguista. Pior que isso: é sair na véspera de Natal, em dia de chuva, batendo de loja em loja, perguntando: “ – Tem camisa do Flamengo?”.

Era Natal de 1987, eu com meus 7 anos de idade recém completos, vendo encerrar-se o ciclo da geração Zico a frente do rubro-negro da Gávea. Foram 25 títulos só entre os anos de 1980 a 1990. Sob forte comoção e impacto dos resultados vitoriosos e de todo o apelo midiático frente ao sucesso da Urubuzada, pedi de presente de Natal uma camisa do Flamengo. Chegada a véspera e diante da negativa resposta frente a indagação de minha mãe (“ – Você ainda não comprou o presente do teu filho???”), saiu papai em busca do regalo.

Foi demais para ele: um vascaíno inveterado, nascido em Xapuri, cruz-maltense de São Januário, ex-jogador do Vasquinho da Quintino Bocaiúva e da Avenida Brasil, sair em périplo pelos comércios da Epaminondas Jácome, final de tarde e de expediente no Banco do Brasil, debaixo de garoa fina, a indagar de cada vendedor e lojista, ouvindo sempre a mesma resposta: “ – Ter, tem, mas é tudo tamanho adulto”. Foi encontrar depois de algumas horas - já um tanto quanto molhado - na “Olímpica” tradicional loja de artigos esportivos de Rio Branco, próxima ao entrocamento da Getúlio Vargas com a Nações Unidas (ao lado da Utilar, de fronte ao prédio do INSS).

Não era um réplica miniatura do uniforme oficial, mas uma dessas muitas versões extra-oficiais, licença poética para agradar colecionadores que compram todo e qualquer artigo que leve o escudo do clube, de chaveirinhos a adesivos para carros. De poliéster, era branca, com uma tarja preta na altura da cintura e abaixo, vermelha. O tradicional CRF no peito, com as três estrelas alusivas aos três primeiros tricampeonatos estaduais [1942-1943-1944; 1953-1954-1955; e 1978-1979(Camp. Carioca)-1979(Estadual do Rio)], que hoje já não figuram para dar espaço a estrela única, referência ao título mundial de Tóquio, obtido em 1981. Na faixa preta, uma inscrição em veludo branco e em caps lock: MENGO.

Aquilo foi o melhor presente de todos os tempos. Vestia a camisa todos os dias e lavava, eu mesmo, para poder vestir no dia seguinte. Fiz isso até ela não caber mais. Guardo a camisetinha até hoje, lembrança do meu falecido e saudoso pai, Messias. Na condição de primeiro exemplar, ela integra uma coleção razoável de camisas oficiais e extra-oficiais que parou de crescer a partir do momento em que os clubes passaram a alterar o uniforme a cada temporada e a cobrar preços exorbitantes para aquele que viesse com o selo de “oficial”.

Mas, o que quero salientar com tudo isso é a liberdade de opiniões, orientações políticas, filosóficas, místicas, míticas e tudo o mais com a qual fui criado na minha família. Não digo somente do núcleo familiar mais imediato, mas em toda a família. Comprovo:

Tive o privilégio de optar por ser batizado na Igreja Católica, já aos 11 anos de idade. É claro que o fato de ter sido criado na Praça da Catedral, às barbas do Bispo Dom Moacir Grechi (a quem, inocentemente, chamávamos de vizinho) e ter estudado os anos inicias no Instituto São José (Salve, Professora Ismelina) influenciaram sobremaneira esta escolha. Mas somente em partes, porque com um pai crítico como o que eu tive em relação às posturas por vezes retrógradas da igreja e uma mãe mais ainda, seria mais fácil se tivesse me “convertido” ao ateísmo.

Tive a liberdade de, a partir das vivências, experiências e leituras, escolher o partido político da minha preferência. Meu tio-avô Mário Maia, Senador da República e 3º Secretário da Assembléia Nacional Constituinte, se elegeu pelo PMDB, emprestando parte de sua popularidade para ajudar na eleição do Governador Nabor Júnior, com quem viria a se desentender posteriormente, se filiando ao PDT de Leonel Brizola. Everaldo Maia, meu tio, sobrinho do Mário Maia e irmão da minha mãe, foi Comandante-em-Chefe do MR-8 no Acre. Meu pai, sindicalista de bastidores, nunca da linha de frente, tinha seus apreços pelo PCdoB e seus candidatos, além de gozar de forte amizade pessoal com Flaviano Melo (PMDB), de quem, na infância, fora colega de escola. Nunca se envolveu na política partidária, sempre trabalhou ou na iniciativa privada ou no Poder Público, aprovado mediante concursos. Mas era ferino e contumaz crítico da política, não poupava de sua acidez verbal sequer os de sua simpatia e nem aqueles de quem gozava amizade. Com antecedentes assim, ninguém diria que eu viria a ser petista, por opção.

E, por fim, também tive a felicidade de poder escolher o time de futebol da minha preferência: mesmo com um pai vascaíno, saí flamenguista.

Tento fazer o mesmo pelo Pedro, mas, confesso, está difícil. O batismo do menino está marcado para setembro próximo (“ – E, por um acaso, o menino vai ser pagão???”, alguém exclamou lá por casa) e temo que a tradicional família mineiro-atleticana da mãe não tenha a mesma condescendência “republicana” que eu procuro ter. Daqui há pouco o menino será coroinha e estará entoando o hino do “Galo forte vingador”: castigo de pai flamenguista será ter filho atleticano. Ao menos no meu caso.

2 comentários:

  1. Excelente texto. Tô lembrando do velho a budejar a busca da camisa rubro-negra.
    Saudades só...
    O jeito é comprar uma camisetinha rubro-negra logo ou torcer pro pimpolho trair a tradição familiar e ser cruzeirense.

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  2. Uma hora ou outra, a verve brota e o gurizão, pra espanto da banda materna, se rebela. Afinal, tendo o pai que tem, o viés de independencia tá ali, garantido por trás daquela carinha linda de lua.

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