sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

25 Anos, Chico Mendes Vive Mais!


Neste último domingo (15) Chico Mendes faria mais um aniversário. Como em todos os anos, nos últimos 10 anos, na semana que abrange a data de seu aniversário e também a data de seu martírio, acontece a entrega do “Prêmio Chico Mendes de Florestania”, que visa reconhecer iniciativas e boas práticas que levem adiante o seu legado, como forma de honrar e reverenciar os sonhos e a memória do nosso líder seringueiro.

Na solenidade deste domingo foram premiadas as categorias de praxe: para iniciativa de origem comunitária, foram agraciadas a Comunidade Porongaba e a Organização dos Agricultores Kaxinawá da Terra Indígena Colônia 27, ambas por seus trabalhos de práticas sustentáveis de agricultura familiar, sem uso de fogo e com altos índices de produtividade.

Para iniciativa de origem estadual, foi premiado o ex-Secretário de Educação, ex-Vice-Governador, ex-Governador e atual Secretário Nacional de Articulação com os Sistemas de Ensino (SASE/MEC), Arnóbio Marques de Almeida Júnior, nosso querido Binho Marques. Binho conviveu com Chico Mendes, ombro a ombro, durante a implantação do “Projeto Seringueiro” de educação popular na floresta, responsável pela implantação de dezenas de escolas no território hoje abrangido pela Reserva Extrativista Chico Mendes, terra dos conflitos entre seringueiros e jagunços e dos empates de antanho.

Pela iniciativa de origem internacional foi agraciado o Sr. Karl Heinz Stecher, do banco alemão KFW. O banco é a primeira instituição internacional a aportar recursos no Estado do Acre em virtude do complexo mercado de créditos de carbono. Em alusão aos 25 anos desse legado, além dos três prêmios de praxe, também foram homenageadas 25 personalidades e instituições que levam adiante os sonhos e ideais de Chico em suas trajetórias.

Tenho participado de todas as solenidades do prêmio nos últimos 7 anos. Nesse ano de 2013, o que mais me gratificou foi que, por sugestão da Comissão Especial nomeada para organizar a programação dos 25 anos do legado, a Secretaria de Estado de Educação realizou um concurso de desenhos, poesias e redações, destinado aos alunos das escolas públicas.

Com mais de 7 mil participantes, de 44 escolas públicas distintas, considero a iniciativa bem sucedida. Afinal, estimular crianças e jovens a expressar suas opiniões e sentimentos em relação à memória e ao legado do líder seringueiro, herói nacional e agora patrono nacional do meio ambiente é o melhor caminho para estabelecer o elo de ligação entre tudo aquilo que Chico fez em defesa dos direitos dos povos amazônicos e as presentes e futuras gerações, para que seu legado sirva cada vez mais de inspiração, de referência em defesa do meio ambiente e da sustentabilidade.

Inspirado na iniciativa do concurso, aproveito para compartilhar um discurso que proferira em 2008, por ocasião do lançamento da edição do prêmio daquele ano. Ainda serve para os dias de hoje:

“Não costumo escrever ou rascunhar meus discursos. Mas, dada a relevância da ocasião, peço licença a todos para ler algumas palavras.

Quando o Chico morreu, em 1988, eu tinha 8 anos de idade. De lá pra cá, então, cresci ouvindo dois discursos. Com algumas variações, mas, basicamente, dois discursos. O primeiro, nada abonador da figura do Chico: diziam que ele era um preguiçoso, vagabundo, que seringueiro gordo era sinal de pouco empenho para com o trabalho; que era um agitador político, que insuflava os seringueiros à rebelião e daí para pior. O segundo discurso trazia a figura do mito, do herói, do grande líder ecologista, preocupado e responsável pela mobilização mundial em torno da causa da preservação da floresta amazônica equatorial.

Com o passar do tempo e um certo acúmulo de leitura sobre o tema (não muita, mas alguma leitura), com a possibilidade de convivência direta com boa parte dos protagonistas dos acontecimentos da época, boa parte deles com quais tenho a grata satisfação de conviver, enquanto companheiros de trabalho, o que hoje me parece bem óbvio só foi ganhando os devidos contornos aos poucos.

É claro, e a grande maioria das pessoas que conheço tem essa clareza, que aquele primeiro discurso era o chamado “discurso competente”, discurso dos interessados na manutenção de um status quo ante que representava a já combalida lógica do aviamento, do regatão e suas variáveis mais contemporâneas. Era a lógica da pata do boi, da necessidade de desflorestamento para o plantio de pastagem, enfim a lógica do patrão.

Mas o segundo discurso, tampouco, correspondia ao que acredito hoje. Também era um discurso um pouco desconectado da realidade. Estava mais próximo dela, mas ainda se distanciava muito a figura do Chico líder comunitário, sindical, responsável pela resistência e pela mobilização dos trabalhadores da Amazônia em torno das causas trabalhistas e, a partir daí sim, a preocupação com o ambientalismo, com a preservação do bioma e dos ecossistemas amazônicos, com a possível interação entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Esse mesmo discurso também destoava um pouco da figura do Chico Homem: filho, pai, marido.

E aí eu fui percebendo que essa dicotomia de discursos estava presente na contradição mesmo que é a constituição das famílias acreanas. Eu venho de famílias de seringueiros e seringalistas, empregados e patrões, expropriados e expropriadores. Tive um avô, que na verdade, se vivo estivesse, tinha idade de ser o meu bisavô, que foi guarda livros do Seo Raimundo Vieira, um dos maiores seringalistas de Xapurí e do Acre. Não era o seringalista, mas casou-se com a filha dele. Depois, já com a idade bem avançada, casou-se com a minha avó, mãe de meu pai Messias, ela filha de trabalhadores e também uma grande trabalhadora: fazia doces para fora, para as festas das famílias mais abonadas em Xapurí. E, de outra banda, em outro ramo da família, tive bisavô que foi seringueiro ali bem perto de onde hoje é a minha casa, na Vila Ivonete. Trabalhava no corte da seringa até abandonar o seringal e ir vender “cacheada” no seu carrinho de doces. Esse era o Lindolfo Queiroz, chamado de Vô TemTêm (porque, para anunciar a venda dos doces gritava: “Tem cacheada, tem cocada, tem rapadura...). Afora o bisavô Benedito Maia, pai do ex-senador Mário Maia, meu tio-avô, que era comerciante e, desde sua chegada ao Acre, se fixou no incipiente núcleo urbano de Rio Branco: primeiro lá na Rua Eduardo Assmar, onde hoje está localizada a sede da Fundação Elias Mansour, que tenho a honra em presidir, depois onde hoje é ali o Calçadão da Epaminondas Jacome, esplanada do Novo Mercado Velho. Para completar toda a cadeia produtiva da economia da borracha e depois do gado faltaram, na família, um dono de Casa Aviadora e um Fazendeiro.

E eu conto isso, tão somente, para ilustrar o quão deve ser difícil para uma criança, para um jovem, diante de uma confusão e uma profusão tão grande e tão dispare de opiniões, conceitos e idéias, formar sua própria opinião a respeito de um personagem histórico, ou mesmo a respeito de uma causa tão relevante como é a causa do desenvolvimento sustentável. Sustentável porque sustentado em preceitos segundo os quais é possível desenvolver-se economicamente com a preservação do meio-ambiente e dos modos de vida das populações tradicionais, seja na Amazônia, seja em outros lugares do planeta. Para mim foi difícil.

Aí é onde ressalto a importância do Prêmio Chico Mendes de Florestania. Não só do prêmio, mas de toda a programação da Semana Chico Mendes e, nesse ano, em especial, do Ano Chico Mendes. Reconhecer iniciativas de indivíduos e instituições que se pautem pelos princípios da sustentabilidade ambiental, sócio-cultural, política e econômica é contribuir efetivamente na propagação e na perpetuação dos ideais e do legado do Chico para as gerações presentes e futuras.”


Publicado no jornal A Gazeta, de 17 de dezembro de 2013

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