domingo, 15 de junho de 2014

Sobre a Copa, protestos e política

Está claro que toda a sorte de manifestações que tiveram o seu ápice em junho de 2013 e que prosseguem até hoje com os protestos do #NãoVaiTerCopa, culminando com os xingamentos à Presidente da República na abertura da maior competição esportiva do mundo fazem parte do fenômeno de antecipação do debate eleitoral. Às pessoas, não é suficiente manifestar-se nas urnas, por intermédio do voto, posto que a democracia representativa, apesar de legítima e necessária, não se basta sozinha: faz-se necessário submeter mandatos (executivos e legislativos) e as respectivas decisões que cabem aos dignitários destes mandatos ao processo de legitimação constante que se dá através dos diferentes mecanismos de cidadania e democracia participativas. Protestar (de preferência com urbanidade, de forma pacífica, inteligente, civilizada e educada) é um destes mecanismos, que se afigura quando os demais mecanismos não se apresentam suficientes para suprir o desejo e a necessidade do cidadão comum em participar de forma eficiente, eficaz e efetiva das decisões cujos impactos serão sentidos na vida de cada um.

Contudo, há uma consideração a se fazer. No Brasil, os protestos recentes demonstram um binômio presente no atual contexto histórico em que nos encontramos e vivemos. De um lado, um elevadíssimo grau de exigência das pessoas acerca das políticas públicas à disposição dos cidadãos. O debate já não é, por exemplo, se toda criança de 6 a 14 anos tem acesso a escola, posto que já universalizamos o acesso ao ensino fundamental. O debate é sobre a qualidade da educação que é ofertada no sistema público de ensino – e que, sim, melhora a cada ano, como demonstram os resultados do IDEB, do ENEM, do PISA e de qualquer outra avaliação externa em larga escala utilizada para aferir a proficiência/aprendizagem de alunos brasileiros – mas que também precisa avançar mais e mais rápido. Isso é sinal de que bandeiras históricas foram conquistadas, de que viramos a página de importantes demandas sociais: primeiro convolando bandeiras de luta em direitos; depois convertendo direitos em políticas públicas; após, materializando tais políticas públicas em bons programas e projetos que, ao se converterem em resultados concretos, por sua vez, representam aumento na qualidade de vida das pessoas. E isso tudo graças atuação de um governo comprometido com as bandeiras de lutas sociais, que traz consigo o DNA dos movimentos e de suas causas.

Ocorre que, como no dito popular, a medida do ter nunca enche. Quem tem mais, quer muito mais. Isso explica os manifestos. As pessoas, antes desvalidas e despossuídas de tudo, hoje não querem só ter. Querem ter do bom e do melhor. E isso é justo, é justíssimo.

Do outro lado do binômio, junto a esse elevado grau de exigência das pessoas, há também um grau elevado de descrença no papel da política e dos políticos. Parte da responsabilidade sobre este baixo conceito de que nós, políticos, gozamos perante a sociedade é nossa mesmo. Mas a principal parcela de responsabilidade se credita à essa campanha ostensiva, constante e ininterrupta que os grandes conglomerados da imprensa, os chamados “mass-media”, fazem há décadas no Brasil: de satanização e demonização da política e dos políticos.

A grande imprensa brasileira (ressalte-se que não se pode generalizar) é conservadora, defensora do status quo (quando este status quo lhe favorece, geralmente condicionado à presença das forças de direita no poder), pessimista, alimentadora do complexo de vira-lata do brasileiro. É a imprensa dos grandes jornalões e mega conglomerados da meia dúzia de famílias que detém o monopólio das comunicações no Brasil, caudilhos das forças reacionárias de direita, eternamente inconformadas com a ascensão das esquerdas ao poder. Como em frase atribuída a Chico Buarque, é essa “mídia conservadora e recalcada que [diante de avanços históricos e resultados expressivos de Governo] sabota e cria um clima de que estamos ‘a beira do abismo’. E tem gente que vai na onda e não lembra do nosso passado medíocre.”

Não se trata de esconder problemas, sejam eles relativos à corrupção ou má gestão, pra debaixo do tapete. Ou de defender a idéia de uma imprensa amordaçada, atrelada, porta-voz oficial do Governo em uma relação espúria e incestuosa em que ambos tentariam transparecer a idéia de um mundo colorido onde tudo é bom e perfeito. Não se trata, também, de negar avanços pretéritos, de Governos anteriores. Trata-se, sim, de comparação entre passado e presente, de resultados de governo. O debate é sobre números, sobre metas atingidas e resultados alcançados. Afinal, como diria o cientista social italiano Domenico de Mais, um dos grandes pensadores da atualidade, “meu otimismo com o Brasil se baseia nas estatísticas”. Senão vejamos:

De 1930 até 2002, sob o Governo de 23 diferentes Presidentes da República, o Brasil contou com 3 milhões de estudantes universitários. Nos 12 anos dos Governos do PT de Lula e Dilma, 7,5 milhões de jovens tiveram a oportunidade de ingressar (e engrossar) as fileiras de alunos de instituições de nível superior;

De 1909 até 2002, foram inauguradas 140 escolas técnicas no Brasil. De 2003 a 2014, nos 12 anos dos Governos do PT, Lula e Dilma inauguraram 365 escolas técnicas. Duas vezes e meia o número alcançado em um século;

De 2003 a 2014, 22 milhões de brasileiros deixaram a faixa da extrema pobreza (assim considerados aqueles que tem menos de R$ 70,00 de renda per capta ao mês) e 40 milhões de brasileiros passaram a integrar a classe média, graças a programas como o Bolsa-Família;

50 milhões de brasileiros (quase 1/4 da população) foram atendidos pelo programa Mais Médicos, em menos de 2 anos de sua existência;

Nesses últimos 5 anos, o Brasil tem apresentado os menores índices de desemprego de toda a sua história: 4,5% em 2013;

Programas como o “Minha casa, minha vida”, “Luz pra Todos”, “Programa de Aquisição de Alimentos” dentre outros tem levado dignidade e esperança as famílias menos abonadas, na zona urbana e na zona rural;

Não vou falar em elites. Elite, pra mim, são aquelas pessoas que integram a faixa de 1% da população que detém 90% das riquezas, em detrimento dos 99% de brasileiros que dividem os 10% do que sobra. Desta fazem parte os abonados membros das 15 famílias mais ricas da nação, cujo patrimônio é 10 vezes maior que a renda de 14 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa-Família. Nada de errado em ser rico, mas o que quero dizer é que estes constituem uma minoria tão pequena que sua opinião não faria tanta diferença, não fossem algumas destas 15 famílias, justamente, aquelas que controlam os mass-media nacionais. Mas esse é outro debate.

Falo mesmo é da zona do meio, da enorme classe media nacional, essa mesma que foi aumentada em 40 milhões de brasileiros que no Governo de Lula e Dilma saíram da pobreza e nela ingressaram. Uma camada intermediária, bastante heterogênea da população, em cujo estrato mais elevado se encontra tanto os membros da classe media alta, de famílias tradicionais, quanto os “novos ricos”, além de servidores públicos, membros da alta burocracia estatal, de cujas opiniões essa imprensa conservadora e carcomida é a porta voz.

São estes os que, da área nobre do estádio Itaquerão, xingaram, desrespeitosamente, a Presidente da República (uma Chefe de Estado, é bom que se diga: merece respeito independente das preferências políticas das pessoas). Os mesmos que criticam a realização e os gastos com a Copa, mas pagaram R$ 990,00 em um ingresso para ver a estréia da seleção canarinho (vai entender a incoerência).

São essas pessoas que torcem o nariz quando vêem o filho do pobre, do negro, da lavadeira, do zelador, do servente, do mecânico, do gari, freqüentando os bancos da mesma universidade que os seus filhos, graças a programas como o REUNI, o PROUNI e o FIES. São essas mesmas pessoas que fazem cara feia quando vêem pessoas simples nos aeroportos, e exclamam com desprezo: “- Isso aqui está mais parecendo uma rodoviária”. São essas pessoas que se assustam com os rolezinhos e que se incomodam com a negritude dos ex-pobres presente nos shopping centers, sentando-se lado-a-lado consigo nos cinemas e praças de alimentação da vida. São essas pessoas que desqualificam o voto e o resultado eleitoral favorável as esquerdas, afirmando que pobre não sabe votar, que quando analfabeto vota, é nisso que dá!

São os arautos do preconceito, do racismo, do sectarismo, do pensamento de castas, do segregacionismo, do conservadorismo. Estes não votam no PT, nunca votaram, nunca votarão. Não admitem que o Brasil tenha sido governado por um operário, torneiro mecânico, analfabeto, nordestino, baixinho, feinho, barbudo, barrigudo, sem um dedo e que este tenha feito uma administração melhor do que o seu antecessor: branco, alto, bonito, elegante, professor, mestre, doutor, pós-doutor, autor de mais de meia dúzia de livros. O analfabeto criou nada mais nada menos do que 35 instituições federais de nível superior. O professor, nenhuma.

Sobre a afirmação de que os gastos com a Copa são excessivos e deveriam ser destinados a educação e saúde, mantra repetido de forma inocente e irrefletida por jovens incautos manifestantes e black-blocks, há um mito que precisa ser desfeito: com os estádios, gastou-se R$ 8 bilhões, entre 2010 e 2013. Com educação, União, Estados e Municípios investiram R$ 1 trilhão e 700 bilhões no mesmo período. 212,5 vezes mais despesas em educação do que com a competição.

Tudo bem. O fato é que nós também queremos padrão FIFA nas escolas e hospitais e não só nos estádios. E tenho a mais absoluta certeza de que é com a continuidade dos governos da esquerda que vamos alcançar isso.

Por tudo isso é que digo: #VaiTerCopa, #JáEstáTendoCopa. Não vai ter é segundo turno. Será Dilma de novo, com a força do povo.

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