domingo, 9 de novembro de 2014

Direita e esquerda, 25 anos após a queda do Muro de Berlim

Nesses 25 anos de aniversário da queda do Muro de Berlim, será que ainda existe diferença entre direita e esquerda no mundo? Sim. E, mais do que em outros períodos, ela se tornou latente aqui no Brasil nessas últimas eleições...

No plano da vida individual, segundo a visão da direita brasileira – e porque não dizer do pensamento de direita de uma forma geral – quem não progrediu na vida é porque não teve mérito: ou porque não se esforçou ou não se dedicou o suficiente ou porque não detém os atributos naturais (talento, inteligência etc) necessários para tanto. É a tal da meritocracia, um dos cernes do pensamento liberal (ou neoliberal) de direita.

Para aqueles que compartilham do pensamento e da visão de mundo de esquerda, se alguém não progrediu na vida, não é necessariamente porque não se esforçou ou porque não tem talento. Em muitos casos, é porque não teve as mesmas OPORTUNIDADES que os demais.

É por isso que governos têm papel decisivo no desenvolvimento social de um povo. Programas que geram oportunidades para os hiposuficientes e desvalidos promovem inclusão social e ajudam a reduzir as desigualdades. Porque sempre haverá desigualdades enquanto o mundo e a sociedade estiverem organizados dessa forma. Mas, a distância entre os que tem, podem e sabem mais para aqueles que tem, podem e sabem menos não precisa ter a profundidade de um oceano...

Isso não é ser paternalista, comunista, socialista, bolivariano, chavista ou castrista. Isso se chama solidariedade e compreensão do mundo a partir das necessidades do ser humano e não a partir das exigências do mercado. E solidariedade não se pratica somente nas “Campanhas do Agasalho” ou com doações ao “Criança Esperança” ou ao “TeleTon”...

A meritocracia é importante. Mas a isonomia, a igualdade complexa, é muito mais. Mais importante até do que a igualdade formal perante a lei. Porque, segundo a Constituição, todos são iguais perante a lei. Mas, a mesma doutrina constitucional nos ensina que devemos tratar desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades.

No plano da economia, essas distintas visões de mundo se traduzem da seguinte forma: de um lado, a crença inveterada no mercado e em sua capacidade auto-suficiente de suprir as necessidades da sociedade a partir da clássica lei da oferta e da procura e demais postulados e axiomas econômicos. Desse mesmo lado, a crença de que o Estado não deve interferir nessa relação e, portanto, deve assumir papel coadjuvante e, por vezes, até se retirar dela por completo.

De outro lado, a crença de que o Estado tem um papel tríplice: assegurar o exercício dos direitos sociais por meio da oferta de serviços públicos básicos de qualidade para todos (função de serviço público); induzir o desenvolvimento, através de estímulos e incentivos à iniciativa privada (função de fomento); tributar, regular e impor limites ao mercado, para inibir a autofagia típica dos períodos mais selvagens do capitalismo (funções de polícia administrativa, de regulação e de intervenção).

Já no plano da política, segundo o pensamento ortodoxo de direita, democracia se exerce nas urnas, no modelo clássico de representação. Já segundo o pensamento de esquerda, a democracia representativa é sim muito importante e não podemos prescindir dela. Mas não é suficiente. Há que se lançar mão da democracia direta, participativa, por intermédio de múltiplos e diversos canais de participação.

Depois da queda do Muro de Berlim, a ordem bipolar da Guerra Fria ruiu junto com ele. Os sistemas internacionais e o sistema mundo que advieram depois disso traduzem uma ordem multipolar, plural e complexa. Mas, a distinção entre esquerda e direita ainda persiste...

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