segunda-feira, 14 de março de 2016

Farinha pouca, meu pirão primeiro - Uma reflexão sobre os protestos do dia 13

Os que dizem hoje "We are all Sérgio Moro" (what the hell is this???) diziam, nos protestos de 2015, "Somos milhões de Cunhas". Eu é que não me misturo com essa gente...

Se o motivo fosse o combate à corrupção, de verdade, estariam pedindo investigação contra o roubo da merenda escolar em SP, o escândalo do Metrô/Trensalão Tucano, o HeliCoca e os aeroportos construídos com recursos públicos em propriedades privadas da família de Aécio, o apartamento de Paris de FHC, o triplex de Paraty e os crimes de sonegação fiscal, ocultação de patrimônio e de evasão de divisas da Família Marinho/Rede Globo, o Tucansalão de Furnas etc etc etc...#SQN!

Travestidos de bons brasileiros indignados com a corrupção estão defensores da volta do regime militar; contrários a luta por igualdade de direitos entre homens e mulheres; contrários a presença de mulheres no poder; contrários a ascenção dos mais pobres ao mercado de consumo, em virtude de políticas de distribuição de renda; contrários à conquista de direitos trabalhistas por empregadas domésticas; contrários às políticas de ações afirmativas/cotas para negros, pobres e estudantes de escolas públicas; contrários a presença de médicos estrangeiros negros/cubanos no país; a favor da redução da maioridade penal; a favor da manutenção de privilégios de classes em detrimento dos mais pobres… Em síntese, fascistas, racistas, machistas e homofóbicos, coxinhas e direitosos da pior estirpe. Tem gente de boa-fé no meio, bem intencionadas, com certeza. Mas, as companhias depõem contra estes também, assim como nossas más-companhias depuseram e depõem contra nós nesse modelo putrefato de "presidencialismo de coalizão".

Faz tempo que isso tudo que estamos vivendo (crise, protestos, Lava Jato, impeachment) deixou de ser uma questão de combate à corrupção. Trata-se da velha luta de classes, da disputa de interesses. Trata-se de saber quem vai pagar a conta do déficit fiscal, de qual tese, qual visão de mundo prevalecerá em um momento de crise, recessão e escassez.

Quando falo em disputa, falo que todos disputam os benefícios do Estado e defendem os seus próprios interesses: o funcionalismo público, que quer aumentos; o judiciário, que quer benefícios para seus membros que outros profissionais não tem; os parlamentares, que, além do salário, contam com gordas verbas; a população mais carente e hipossuficiente, que luta por cada vez mais recursos para os programas sociais; os empresários, que querem cada vez mais subsídios e isenções de tributos para suas atividades produtivas; os investidores do mercado financeiro e as grandes corporações transnacionais, que não querem ter seus rendimentos ou suas remessas de divisas às suas matrizes no exterior taxadas e tributadas… E por aí vai.

Quando há bonança de recursos, mesmo com desigualdade, tudo se acomoda, dá para contemplar os interesses de todos, e todos ficam, relativamente, felizes e satisfeitos. Quando há escassez, como agora, dá briga. É a tal disputa. A crise atual é, portanto, muito mais de disputa em face da relativa escassez, e menos de corrupção.

E, nessa disputa, prosperará a tese dos poderosos, da grande mídia, em detrimento da mídia alternativa; do grande capital financeiro especulativo e dos mega empresários em detrimento dos micro e pequenos comerciantes e industriais; dos grandes latifundiários e do agronegócio em detrimento do pequeno produtor rural da agricultura familiar; qual seja: um ajuste fiscal ortodoxo, com aumento da tributação indireta (que afeta aos mais pobres, ao invés de aumento da tributação direta, que afeta aos mais ricos), redução dos investimentos sociais e controle da inflação, com altas taxas de juros e relativa desvalorização da moeda. A mesma receita falida que deixou a maior parte da população do país na bosta, durante séculos e que retorna com força total agora. Sempre mais do mesmo...

Daniel Zen é bacharel e mestre em Direito, deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores e Líder do Governo na ALEAC.

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